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Marcos Moura - Símbolos Adinkra, filosofia e tecnologia ancestral africana

Coluna: Cultura e Negritude

Marcos Moura - Símbolos Adinkra, filosofia e tecnologia ancestral africana Foto: Reprodução/Internet Notícia do dia 06/10/2022

Cabem à educação e à cultura antirracista a missão de contribuir com a recuperação da dignidade humana dos povos africanos, que desde a antiguidade saíram soberanos de suas terras, levando cultura, sabedoria, tecnologia e uma diversidade de conhecimentos a continentes como a Europa, a Ásia e às Américas. Com a escravidão, em tempos recentes, os elos de suas vidas foram rompidos violentamente e sua riqueza cultural dispersada, invisibilizada, negada, inferiorizada e até demonizada pelo racismo colonial que se perpetua com o colonialismo dos dias atuais.

 

É hora de voltarmos e buscar o que ficou para trás, reunir pedaços e restabelecer conexões com a nossa ancestralidade. O conhecimento e o desenvolvimento da humanidade devem muito à África. Africanos e afrodescendentes espalhados pelo mundo se reconhecem herdeiros de uma civilização que criou sistemas de escrita, avanços tecnológicos, estados políticos organizados e tradições epistemológicas. Que engendrou a matemática, a escrita, a engenharia, a astronomia, a medicina, a filosofia, a música e o teatro.

 

Uma dessas tradições é o Adinkra, conjunto de símbolos que representam ideias filosóficas expressas através de provérbios. Essa cultura é típica dos povos Acã da África ocidental, notadamente os Asante ou Ashanti de Gana e de outros países como Burkina Faso e Togo.

 

Trabalhando no campo da linguagem como conhecimento e tecnologia ancestral, os Adinkras são ideogramas que expressam valores, normas sociais, ideias filosóficas e códigos de conduta. Podem ser divididos em algumas categorias, como seres humanos, animais, objetos artesanais, plantas, corpos celestiais e ideias abstratas.

 

A palavra Adinkra tem significado de despedida e quer dizer “adeus à alma”. Esses símbolos eram estampados nas roupas utilizadas pelos participantes de cerimônias fúnebres, mas com o passar do tempo sofreram alterações em relação aos seus usos, além do surgimento de novas figuras. Hoje o Adinkra está espalhado por todo mundo e passou a ser utilizado também em contextos não formais. Podendo aparecer em representação grafada, estampados em tecidos, joias, adereços, esculpidos em madeira ou em peças de ferro para pesar ouro. Muitas vezes eles são associados com a realeza, identificando linhagens ou soberanos. É um entre vários sistemas de escrita africanos, a exemplo dos hieróglifos egípcios e seus antecessores. O que contraria a noção equivocada de que o conhecimento africano se resuma apenas à oralidade.

 

Para compor a logo da Escola Afro-Amazônica, pioneiro projeto amazonense de educação antirracista, o Instituto Cultural Ajuri (INCA) escolheu a Sankofa, um dos mais conhecidos símbolos Adinkra. A Sankofa é representada de diferentes formas e é encontrada com facilidade, geralmente em portões, grades, estampas e tatuagens. Ela simboliza um pássaro que olha para trás, e tem como provérbio: “nunca é tarde para voltar e buscar o que ficou para trás”, nos ensinando o valor de aprender com o passado para a construção do presente e do futuro. Expressando a força e o valor da nossa ancestralidade africana.

 

Que tal conhecer e aprender com os Adinkras?

 

Referências bibliográficas

CARMO, Eliane Fátima Boa Morte do. História da África nos anos iniciais do ensino fundamental: os Adinkra. Salvador: Artegraf, 2016. Disponível em: <https://www.ufrb.edu.br/mphistoria/images/Disserta%C3%A7%C3%B5es/Turma_2014/Eliane_Fatima_Boa_Morte_Do_Carmo.pdf>. Acesso em 28 de junho de 2022.

IPEAFRO. Adinkra. Disponível em: <https://ipeafro.org.br/acoes/pesquisa/adinkra/>. Acesso em 1 de julho de 2022.

NASCIMENTO, Elisa Lakin e GÁ, Luiz Carlos. Adinkra. Sabedoria em símbolos Africanos. Rio de Janeiro: Pallas, 2009.

 

Marcos Moura - Cientista Político, Especialista em Gestão e Produção Cultural e Educador Antirracista.